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SOUZA, Lincoln Moraes de. Os modos petistas de governar. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPUR, 8., 1999, Porto Alegre. Anais… Porto Alegre: ANPUR, 1999.
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Dados do autor na base InfoHab:
Número de Trabalhos: 3 (Nenhum com arquivo PDF disponível)
Citações: 4
Índice h: 2  
Co-autores: 15

Resumo

Quando em 1992 o Partido dos Trabalhadores (PT) publicou o livro intitulado O Modo Petista de Governar poder-se-ia ter a impressão de que, finalmente, grande parte dos problemas do partido, referentes às suas prefeituras, estariam essencialmente resolvidos. Ou, no limite, bem equacionados. Nesse sentido, estaria reinando um consenso ou um pensamento majoritário sobre a natureza e o papel dos governos municipais, a relação com o partido e o movimento social, a participação popular, a inversão de prioridades, reforma do Estado e outras questões polêmicas que tiveram início desde a origem do partido. E tanto parecia assim que, no horário da propaganda eleitoral na TV durante a disputa das eleições municipais de 1996, transmitia-se, como regra, uma parte nacional padronizada, em que as realizações das prefeituras petistas (educação, saúde, etc.) e o estilo de gestão conjugavam-se com o bloco local, para conformar uma espécie de proposta sincronizada. Divulgava-se, portanto, o modo petista de governar como um troféu do partido e um exemplo a ser seguido. E como se não bastasse, em 1997 foi publicado um novo livro sobre o assunto e, já no prefácio, José Dirceu, Presidente do PT, afirmava que nas eleições do ano anterior o modo petista de governar esteve no centro desse debate e dessa disputa, sinalizando uma alternativa para nossas cidades. Porém, e acreditamos que de forma não proposital, já no primeiro artigo da coletânea e na página inicial, Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre, negava a existência do referido modo. Detalhe importante: esta conclusão foi expressa por uma grande liderança do partido e que, em alguns momentos, foi cotado para ser candidato à Presidência da República. E no mesmo diapasão, o Prefeito da também capital gaúcha, Raul Pont, afirmava algo semelhante no livro citado. Já nas últimas eleições de 1998 para Presidente, Governadores, Deputados Federais e Estaduais e uma parte do Senado, o modo petista de governar praticamente saiu de cena. Algumas perguntas, então, ficam no ar: afinal, existe ou não um modo petista de governar? Ou o modo só tem uma validade limitada ao plano municipal e ainda está em construção? A resposta a estas e outras interrogações exige uma análise mais criteriosa que extrapole uma polêmica meramente linguística e propicie um debate mais fundamentado. De um lado, como veremos adiante, tem-se valores e princípios, bem como diretrizes gerais contidas em alguns documentos nacionais do PT, que norteiam (ou procuram orientar) a prática dos governos petistas. De outro, porém, vamos encontrar uma conexão fluída e diferente no tempo e nas situações concretas entre estes mesmos documentos e o cotidiano dos governos, especialmente das prefeituras. Em outras palavras, diríamos a título introdutório, que se tem uma grande e diversificada experiência acumulada, todavia, ainda não foi elaborado um conjunto coerente de propostas articuladas nacionalmente e nem um modelo referencial, propriamente dito, que sirva de padrão, na prática, para as gestões petistas. Além do mais, as reflexões já feitas focalizam, principalmente, as médias e grandes cidades, ou seja, não conseguem dar conta da grande diversidade e acumulação de importantes experiências vividas pelo próprio PT à frente dos governos. Assim, não é por acaso que já em 1994 Kowarick e Singer, ao analisarem os avanços, impasses e percalços do governo de Luiza Erundina na cidade de São Paulo entre 1989-92, alinham sinteticamente o que chamam de proposições estratégicas e que conformariam um modo petista de governar, a partir do referido livro . Contudo e de maneira um tanto tímida, numa nota de rodapé iniciam a decifração do enigma e, de certa forma, abrem uma trilha para a resolução do problema. Nas suas palavras, em face das várias experiências de gestão municipal, seria mais adequado falar em ‘modos petistas de governar. E é exatamente sobre esses modos que versará este trabalho que, na verdade, faz parte de uma pesquisa mais ampla e ainda em curso sobre as prefeituras petistas. No estágio atual da análise , por conseguinte, não pretendemos (e nem devemos) ter conclusões fechadas e definitivas. Nosso objetivo central, no momento, é fixar e desenvolver linhas interpretativas para desvendar de forma mais sistemática e detalhada os modos petistas de governar. Para tanto, recorremos a alguns estudos de políticas públicas que dizem respeito mais diretamente ao tema, a documentos partidários e poucos trabalhos especificamente sobre o assunto e, evidentemente, ao material empírico das prefeituras petistas. Com isto, já podemos adiantar sinteticamente alguns resultados preliminares, onde a ênfase recairá sobre as diferentes concepções, ao longo do tempo, do modo de governar. Simultaneamente e de forma relativamente fragmentária, apontaremos, sempre que necessário e possível num trabalho de pequeno espectro como este, situações concretas e exemplos ocorridos nas prefeituras petistas que ilustrem o estágio atual de nossa pesquisa.
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