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AZEVEDO, Jorge Baptista de. Ensino de paisagismo e produção de subjetividades. In: ENCONTRO DE ENSINO DE PAISAGISMO EM ESCOLAS DE ARQUITETURA, Rio de Janeiro, 1998. Anais... Rio de Janeiro, 1998. p. 84-90.
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Dados do autor na base InfoHab:
Número de Trabalhos: 3 (Nenhum com arquivo PDF disponível)
Citações: 1
Índice h: 1  
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Resumo

Fato verídico: numa dessas noites de abril, caminhava após jantar, com um amigo, pela praia de lcaraí. O leve frio do noite agitava o mar e a nova iluminação realçava o contraste deste com os prédios e seus jardins cuidados, o sky-line do Rio de Janeiro reluzia do outro lado da baía de Guanabara. Tudo parecia perfeito em uma dos mais belas e famosas paisagens de cartão postal do mundo. Subitamente vimos um homem tentando deter e convencer algo a uma criança. Havia força em seus braços, mas seu gesto parecia mais um abraço, mais uma preocupação do que uma violência. O homem de branco talvez fosse um médico, a criança um menino negro e maltrapilho certamente estava abandonado e vivia nas ruas. 0 que aproximou aqueles dois: um assalto mal sucedido, uma crise anterior do menino, uma violência disfarçada do senhor de branco? No instante seguinte o menino se libertou dos braços do homem, caminhando rápido traça gestos desconexos, batendo mãos e pernas enquanto grita balbucios ininteligíveis. Convulso, tenso, tamanha dor invadindo uma infância para sempre perdida. Em seus movimentos desordenados, uma ordem maior se evidencia, sacode-se e arrasta-se para a rua, leva seu corpo para a imensa e agitada avenida, e ali derrama-se no chão. Enquanto os carros desviam e freiam, pessoas olham atônitos, o menino se bate e grita: eu quero a minha... eu quero a minha... Não completava. Talvez quisesse uma mãe inatingível, talvez o própria morte, certamente queria, sem saber citar, uma dignidade que nunca lhe foi concedida. Na sua falta, só, lhe restava uma desintegração total do ser que era. Uma BMW negra freia a seu lado, um homem bonito salta e carrega o menino no colo, coloca-o deitado na calçado, mas no mesmo momento o menino volta a repetir a cena. 0 homem pega o menino, coloca-o desta vez dentro do carro e o leva, sabe-se lá para onde. A avenida e as pessoas retomam o normalidade aparente das coisas. Os fluxos não podem parar, a paisagem continua linda. Coisas desse tipo são normais em cidades grandes, devem pensar alguns. Mas naquela paisagem criou-se uma nódoa para todos que viram o fato, a força de sua beleza que sempre me acalmou, sucumbiu diante de outras forças. Toda a obra do cultura e da natureza, ali magistralmente combinados, silenciaram ante os gritos do menino. Faltou quem lhe mostrasse coisas, dizem que ninguém ensina nada a ninguém, podemos mostrar e tentar elucidar a compreensão dos coisas. Mas como ninguém ensinou o menino a gritar por dignidade, a paisagem se dissolveu em um denso negrume. Quem contava as estrelas, poucas que haviam antes, disse que algumas nunca mais voltaram...
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